sábado, 15 de novembro de 2008

O PIOR LUGAR DO MUNDO

Difícil definir esta matéria. "Chocante", além de clichê, já foi esvaziado e banalizado pela imprensa. Eu diria que este é um daqueles assuntos que nos refaz rever alguns conceitos depois de sabermos direitinho como as coisas funcionam.


Não. Não se trata de um conjunto habitacional abandonado às pressas por causa de bombardeios. É um presídio. O nosso.

Eu já tive a oportunidade de entrar lá, mas apenas parcialmente, onde conheci a área de identificação e um mini-mercado. Mas a coisa é muito pior...

Só vendo com os próprio olhos.

Créditos a Carlos Etchichury e Daniel Marenco

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

GUIANA FRANCESA II

Uma sugestão de literatura meio romance, meio reportagem. É o típico "baseado em fatos reais". Papillon conta a história de um francês condenado injustamente à prisão perpétua na Ilha do Diabo (Guiana Francesa), na década de 1930. Na fuga que conseguiu empreender, há uma excelente história permeada por registros geográficos sobre essa região do mundo tão pouco comentada. Vai do belíssimo Mar do Caribe ao um leprosário de dar coceira no leitor.

Foi tão comentando quando do lançamento que virou filme. Mas o livro é bem melhor e mais enriquecedor.


Não bastasse toda essa aura em volta da história real de um francês que escapou da prisão perpétua de uma cadeia num lugar inóspito e misterioso, mais um fator enriquece Papillon.

Um brasileiro chamado Platão Arantes jura que o sujeito que assinou a obra e entrou para a história na verdade é um falsário. O verdadeiro Papillon morreu no Brasil, em Roraima.

Ficou curioso? Tem mais aqui.

E leia o livro.

GUIANA FRANCESA


Eis um belo exemplo e uma recomendação para o resto da semana.

O Jornal Nacional iniciou hoje uma série de reportegens sobre as fronteiras da Amazônia. Nesta segunda-feira, focou os brasileiros que moram na tênue fronteira com a Guiana Francesa. Destaque para algumas peculiaridades que certamente muitos de nós nem imaginamos existir por aquelas bandas. A primeira reportagem foi nota 10. A conferir o resto.

Perdeu?

Clica aqui.

sábado, 8 de novembro de 2008

UMA DEFINIÇÃO

Da série "em busca do conceito perfeito", vai aqui uma belíssima contribuição (e um merchan) de Luiz Cláudio Cunha sobre a diferença entre "reportagem" e "notícia".

"A reportagem é uma longa travessia que contraria as práticas e os limites de tempo sempre estritos da notícia. Se a notícia é o urgente relato de um fato, a reportagem é a descrição ampliada e circunstanciada desse acontecimento. É um jogo de paciência onde a investigação vence a ancestral impaciência da redação pelo resultado diário, pela apuração cotidiana de um tema sujeito ao maldito destino de virar embrulho de peixe como jornal velho do dia que passou."

Segue mais AQUI.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

REPÚDIO

Chocante a notícia de que um repórter paulista foi agredido neste final de semana, durante a cobertura política das eleições municipais em Porto Alegre. Era a gota d’água.

É de causar constrangimento para a imprensa gaúcha. Silêncio? Bairrismo? Omissão?

Espero que os colegas façam as críticas e cobrem (e muito) dos responsáveis na medida que a gravidade do caso exige.

Não entendeu? Leia AQUI e mais AQUI.

O FRACASSO DA POLÍCIA É DOS POLÍTICOS

Juro que o post anterior foi escrito sem o conhecimento da existência do texto a seguir. Trata do mesmo assunto, e faz a mesma ligação entre o caso de Santo André e o do ônibus 174. Com um plus de peso: veja no final quem são os autores. Ah, o artigo é do dia 20 de outubro, da Folha de S.Paulo. Boa leitura.

Não são apenas as ocorrências mal administradas, cheias de erros primários e ilegalidades que demonstram a necessidade de uma reforma da segurança pública no Brasil. Os dados indicam essa necessidade faz tempo. E os nossos políticos, apesar de conhecerem os dados, têm se mostrado incapazes de realizar tal reforma. São eles, no final das contas, os principais responsáveis pela repetição cotidiana de tragédias como a ocorrida no evento do ônibus 174 e do seqüestro em Santo André.

Em conversa informal com agentes do Gate (Grupo de Ações Táticas Especiais), descobrimos que eles estão desolados com o desfecho da ocorrência, que custou a vida de uma pessoa e feriu outra, e revoltados com os políticos, devido ao descaso que têm com a unidade, exposta ao ridículo com o fracasso da operação.

Afinal, se o Gate dispusesse do equipamento necessário para administrar uma ocorrência desse tipo, como uma microcâmera de fibra ótica, saberia que o seqüestrador tinha encostado um armário de TV e uma estante na porta de entrada do apartamento. Saberia que seqüestrador e reféns não estavam na sala, mas no quarto. Saberia que uma invasão pela porta da frente daria tempo para o seqüestrador atirar nas reféns. Mas o Gate não sabia de nada disso e perdeu preciosos segundos abrindo a porta.

Se o Gate dispusesse de escada com alcance para que um policial pudesse entrar no apartamento pela janela, poderia ter evitado a tragédia. Mas a escada do Gate, como atestam as filmagens, era curta demais.

Se os policiais do Gate fossem bem treinados, não teriam deixado que uma menina de 15 anos, libertada pelo seqüestrador, voltasse a ser prisioneira. Não teriam demonstrado tamanha incompetência e desconhecimento legal. Mas os policiais do Gate, como os do Bope e do resto do país, não recebem treinamento adequado.

Quando trabalhamos no documentário “Ônibus 174”, sentimos a mesma revolta por parte dos policiais do Bope, que, em sua maioria, odeiam os políticos a quem servem.

André Batista, colaborador em “Tropa de Elite” e negociador do Bope na malfadada ocorrência, deu o seguinte depoimento para o documentário: “Naquele momento, a gente viu que faltava muita coisa. As coisas que a gente vivia pedindo, os equipamentos, os cursos, parece que, naquele momento, tudo desabou”. Ouvimos, virtualmente, a mesma coisa do Gate.

Chegamos, assim, a uma conclusão absurda. Concluímos, parafraseando Nietzsche, que é preciso defender os nossos policiais dos nossos políticos! Afinal, quem são os nossos policiais? E o que o Estado, administrado pelos políticos eleitos, fornece a eles?

Tomemos como exemplo um policial carioca. É um sujeito mal remunerado, mal treinado, que trabalha em uma corporação corrompida por dentro. Isso é o que o Estado lhe dá. E o que pede em troca? Que mantenha a lei. Em outras palavras, que entre em conflito com os membros corrompidos da sua corporação e com os bandidos fortemente armados da cidade.

Ora, não é à toa que o capitão Nascimento, refletindo um sentimento comum entre os policiais do Bope, tenha dito que “quem quer ser policial no Rio de Janeiro têm que escolher. Ou se corrompe, ou se omite, ou vai pra guerra”. Em São Paulo, não parece ser muito diferente.

Não esqueçamos, pois, o ano de 2003, quando o então secretário nacional de Segurança Pública, o sociólogo Luiz Eduardo Soares, estava prestes a conseguir a reforma que nossos policiais sérios tanto pedem.

Ele tinha participado da elaboração de um plano de segurança pública que previa um piso nacional decente para o salário dos policiais, a integração da formação e das plataformas de informação das polícias estaduais, o repasse de recursos federais para os Estados condicionado à reforma de gestão e ao controle externo e a desconstitucionalização da segurança pública, dando autonomia para que os Estados reformassem as polícias de acordo com as realidades locais.

Apresentou o plano ao governo federal com a assinatura de todos os governadores. E o que fez o governo? Desistiu. Nem sequer apresentou o plano ao Congresso. Não o reformulou, optou pela passividade. Segundo nos disse o sociólogo, por considerar que a reforma demoraria a dar resultado e que a opinião pública poderia responsabilizar o governo federal, e não os Estados, se eventuais tragédias ocorressem durante a implantação.

Evidentemente, não estamos culpando os atuais governos federal e estadual pelo desfecho do seqüestro em Santo André. Afinal, governos anteriores poderiam ter tentado reformar a segurança. O governo FHC, por exemplo, prometeu um plano nacional depois do ônibus 174.

Estamos culpando os verdadeiros responsáveis: os nossos políticos como um todo, que há muito tempo sabem que precisam reformar a segurança pública para salvar a vida de milhares de brasileiros e que há muito tempo fracassam ao não levar essa tarefa a cabo. Um fracasso ainda mais vergonhoso do que o dos policiais do Bope e do Gate.

JOSÉ PADILHA, cineasta, é diretor de "Ônibus 174", "Tropa de Elite" e "Garapa", entre outros filmes. RODRIGO PIMENTEL, sociólogo, é ex-capitão do Bope (Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar) do Rio de Janeiro, um dos roteiristas de "Tropa de Elite" e co-produtor de "Ônibus 174".

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

A CRÔNICA DE UMA TRAGÉDIA REPETIDA

Eram seis horas da tarde de uma sexta-feira. Na tela, o último capítulo de um campeão de audiência. Ninguém queria perder a chance de ganhar alguns pontos naquele espetáculo e, por isso, foi possível acompanhar simultaneamente em várias emissoras, através do rádio, da TV e da Internet, o final daquela mini-série em cinco capítulos.

O nome do programa ninguém lembrava. Por vezes, alguns espectadores não sabiam dizer se se tratava de realidade ou ficção. Os gêneros também se misturavam na cabeça do público, perdido entre uma história de suspense policial e um romance trágico. Pena e raiva se revezavam no coração do público.


A polícia cercava o local com o que tinha de melhor. O namorado cego pela paixão se preparava para devolver a amada e a amiga adolescentes, após mantê-las refém por uma centena de horas. O espectador, acostumado com finais felizes, refestelava-se no sofá de casa e fazia suas apostas com familiares de como aquilo acabaria.

A cena estava viva na mente de todos: o momento em que, por um descuido, o jovem trabalhador sem vícios travestido de criminoso colocaria tão somente o rosto na janela, sem refém, e levaria um tiro mortal, ao vivo. Ou quando o bandido abriria a porta – como o fez tantas vezes – e permitiria o acesso dos policiais ao cativeiro. Rendido e possivelmente ferido o seqüestrador, as duas reféns estariam libertadas. Ou ainda, quem sabe, até mesmo o rapaz se entregando e todos saindo ilesos sob palmas dos vizinhos.

Porém, o público foi frustrado.

Para começar, os policiais ignoraram estas três possibilidades. Os principais narradores da história – apresentadores e repórteres – duvidaram em muito da inteligência dos espectadores. Teve um, acredite, que chegou a afirmar que não havia feridos, no exato momento em que foi possível observar uma das reféns sair ensangüentada.

Chocado, o público se perguntou quais as chances de algo sair tão errado. Mas passados alguns dias, os espectadores retomaram a rotina, e teve até quem se lembrasse que o final absurdo não era tão inédito assim.

Numa quarta-feira, oito anos antes, este mesmo público acompanhou a história de um criminoso que fez 11 passageiros de um ônibus reféns. O impensável também aconteceu. Uma professora tomada como escudo morreu ao vivo, após levar um tiro de um policial e outros três do seqüestrador.


Quando o outro criminoso (aquele das adolescentes) apareceu rendido e sendo colocado a base de socos para dentro de uma viatura, os espectadores também lembraram do que aconteceu com o homem do ônibus. Mas essa parte do final, pelo menos, foi diferente.